«Varinos, nós?
Como musealizar um sentimento...
"O objecto só tem existência no gesto que o torna tecnicamente eficaz" (A. Leroi-Gourhan)
Mas então que objectos são esses que nos propomos apresentar nesta exposição? Que gestos ou, mais precisamente, que gestualidades, os tornam significativos? Que subtilezas lhes conferem emoção? Como musealizar um sentimento... eis a questão.
O desafio era suscitar inquietação relativamente a uma categoria identitária – os varinos, em Setúbal, aparentemente cristalizada num beco histórico. Ora, tendo como lastro o aturado trabalho de campo realizado por Marta e Ricardo, finalistas de Antropologia da Universidade Nova de Lisboa, em estágio académico no Museu do Trabalho Michel Giacometti, procurámos transpor para uma linguagem museográfica, um dos aspectos mais marcantes deste estudo. A identificação de " um sentimento varino ", algo difuso, de difícil definição, de que nos falam algumas pessoas, de várias gerações, ligados a famílias de origem murtoseira que migraram para Setúbal desde meados do Sc XIX, em demanda de trabalho nas pescas e nas conservas.
A identificação desta identidade, tantas vezes patenteada como um pitoresco " bilhete postal" carece de redefinição. Carece de perguntas para as quais raramente encontramos respostas nas palavras ditas. Hoje, quando perguntamos aos nossos informantes, o que é e como se distingue um varino, reportam-se a coordenadas de espaço/tempo – alguém que habita algures entre as Fontaínhas e o Bairro Santos Nicolau, que tem ascendentes na Murtosa e que vivia de certa maneira, segundo certos princípios... hoje muito difíceis de identificar e quase impossíveis de materializar expositivamente.
A questão está em que os tempos mudaram e a ideia idealizada do pescador "bilhete postal" de camisa de xadrez e boné também de alterou. Assim sendo, urge questionar que auto-representação têm os mais jovens desta suposta identidade varina, que imagem têm os setubalenses do afamado pescador de Setúbal.
Pergunta-se mesmo à laia de provocação – constituiria motivo de interesse etnográfico pretexto fotográfico, bandeira turística ou tema patrimonial, um jovem pescador que de manhã navega no rio e à tarde na internet ? Um personagem aparentemente indistinto, que usa calças " Lois", polos " Lacoste " e óculos " Ray Ban ". Em que cartografia da memória ele se inscreve? Em que paisagem humana o fantasiamos? Que futuro lhe vaticinamos?
Esta personagem, paradigma de muitas outras, não é ficção, tem uma existência real na comunidade marítima local, sintetizada na história de vida do elo mais jovem de uma das famílias de varinos por nós estudadas.
Por imposição dos tempos, por mimetismo social, em resposta a novas necessidades e funcionalidades da vida moderna, este pescador de novo tipo, cortou as amarras com os estériotipos, perdeu definitivamente os sinais exteriores de exotismo ditados pelo vestir, pelo falar e pelo estar. Habita hoje outro espaço na cidade, portanto é dentro de si próprio que temos que ir descobrir o tal " sentimento varino "que vem à baila, quando nos fala da infância no Bairro Santos, dos magotes de rapazes que percorriam a pé a cidade, dos tempos passados com o pai na pesca, da ritualização dos costumes, do bater das cartas nas tabernas. É alguém que se sente filho do mundo contemporâneo, membro da comunidade global, mas ciente e seguro de uma origem determinada que o engrandece e âncora a um passado marcante. Falou-nos do alto dos seus trinta e sete anos, da enorme vontade de deixar tudo e seguir as pegadas do pai, investir no velho barco de família, um gasolino chamado " Alice dos Santos ", vezeiro nas Festas da Tróia e zarpar, mar dentro, a pescar chocos, lulas etc., seguindo a tradição da família, sem abdicar da companhia do pc portátil que o atira para as velozes ondas do mundo, quando as águas do rio estão mais paradas e o peixe adormecido.
Assim, voltando à questão como musealizar um sentimento, neste caso "um sentimento varino ", optámos por pedir a cada família que escolhesse um objecto significativo da herança varina, com o intuito de apresentar cinco objectos com "estória" de forte memória. Surgiu um problema – homens e mulheres não se entendem nessa escolha. Então mudamos as regras e combinámos expor dois objectos por cada família, um escolhido pelos homens e outro pelas mulheres. Também cada família retirou do álbum as fotografias mais significativas para expormos no museu. Tudo será legendado com a participação dos nossos interlocutores e na sua forma de contar. Mas alguns, sobretudo os mais velhos, não sabem ler... então filmámos, para acesso visual, o que nos disseram sobre os respectivos objectos, as significações e gestualidades associadas. Então, foi muito interessante descobrir, o que nem sempre as palavras explicam, - a exemplificação do uso de um simples xaile preto de merino, com franjas de seda, guardado há cerca de noventa anos, no seio de uma das mais antigas famílias , mostra-nos que este assume distintas formas consoante a ocasião. Uma linguagem simbólica, provavelmente um traço da identidade varina (a confirmar em estudos comparados), reconhecida entre as mulheres da comunidade, passada de geração em geração. Uma memória singular, sedimentada nos gestos: - "o xaile para o dia-a-dia", caído pelo corpo sem artifícios; "o xaile para festa", alegre, descaído sobre os ombros; "o xaile para a missa" e o "xaile para sentimento " que, em sinal de respeito ou de luto, tapa a cabeça e aconchega a dor.
Os objectos nesta exposição são um mote para desfiar "estórias", âncoras de memórias, contornos de um "sentimento varino " que talvez um dia venhamos a compreender.
Por essa mesma razão começámos este texto com um ponto de interrogação – Varinos, nós? Por vezes surpreendidos com este epíteto, tão longe vai o tempo da varinagem, e acabamos com reticências... em sinal de continuação. »
Isabel Victor
Museu do trabalho Michel Giacometti
Setembro, 2007
Eu vou dar lá uma espreitadela!
2 comentários:
Que bom !
Navegar é preciso, viver não é preciso ...
obrigada :))
Isabel
É assim com todos os que têm o bichinho da museologia!
Obrigada pelo seu comentário.
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