
É, queiram-me assim. Gorda. Com uma medalhita ao peito oferecida pelo pai dos meus filhos no dia da mãe. Com uns óculos fundo de garrafão do tempo da minha avó. À frente de uma equipa de futebol de filhos: o António que já vai para o 6º ano e que é muito ligado à mãe, o Manel que passou para a 4ª classe e que é o melhor da turma, o Joaquim na 2ª classe que só gosta de jogar futebol, a Madalena que este ano vai entrar para a escola e que já sabe ler, as gémeas Maria e Francisca que o senhor padre lá da paróquia diz que já rezam muito bem apesar de só terem 4 anos, o David que com 2 aninhos já está bastante autónomo e é muito amigo da Madalena e por fim, a Soraia que tem 6 mesinhos e é muito linda!
É, queiram-me de xaile preto pelas costas entre uma consulta e outra de pediatria, mais a reunião de pais na escola ou o pagamento da mensalidade da natação. Queiram-me em casa a papar os programas de manhã da televisão enquanto passo a ferro as camisas do "home". A gritar: "Oh vizinha, começou a chover. Olhe a sua roupa." A falar mais baixo que o meu marido e a dizer quando me perguntam a opinião: "Ele é que sabe". A coser as meias do mais velho, os botões no bibe das gémeas ou a trocar a fralda à mais nova.
É, queiram-me sentada no sofá a fazer croché para pôr o rolo de papel higiénico na casa-de-banho e à espera. Sim, à espera que o "home" chegue do trabalho; que os putos façam os deveres da escola; que a comida não azede no frigorifico; que à minha mãe lhe passem os bicos de papagaio; que a minha irmã não me deixe este fim-de-semana, outra vez, os putos lá em casa; que amanhá não chova para que a roupa sece. E com esta cara de felicidade, claro!
É, queiram-me ... a favor, apesar dos inúmeros protestos, da emanciapação. Porque só assim podermos conversar!
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