Ao cabo de 15 meses eu apaixono-me loucamente pela minha filha. Se não gostava dela antes? Gostava. Se não a queria? Muito. Mas a natureza foi extremamente generosa comigo e deu-me a Meia Leca. Eu não tive de lutar por ela, nem chorar, nem correr, nem nada. Ela apareceu. Para meu grande terror. Como é uma Mãe? De que é feita? Como fala? Como ensina? Como vive? De modo que os 8 meses que ela esteve comigo foram poucos para a quantidade de coisas que eu tinha de saber. E quando ela nasceu, a minha amiga C. perguntou: "como é ser mãe?" Eu respondi-lhe a correr. Prontamente como quem não quer mais conversas sobre o assunto. Ela percebeu e disse-me: "Ouve lá, isso é uma definição que tem a ver com os outros. O que é que tu sentes?" Não lhe respondi porque na verdade só me vinham à cabeça coisas pesadas. Eu perdi 25 kgrs desde que engravidei da Meia Leca. Perdi noites e noites de sono. Perdi anos de vida quando a vi cheia de babas vermelhas com uma alergia alimentar, ou quando ela se atirou da nossa cama. Perdi força nas pernas, nas costas e nas articulações. Perdi inumeros programas de televisão, quantidades inumeráveis de dinheiro e o principal, perdi a minha liberdade. Não faço o que quero, como quero, há hora que quero. Nada. E não adianta esforçar-me porque é inútil. A Meia Leca é A mudança da minha vida. Como disse, ela apareceu. Para meu grande terror.
Mas ao cabo de 15 meses a Meia Leca o tempo passou. Não depressa. Não. Mas passou e mudou-me e mudou-a. Aquele bichinho minimo sem interacção que só tem graça durante uma tarde e que me tiraram de dentro de mim (muito contra a minha vontade!) é agora uma menina linda. Aprende tudo num instante, anda e come como gente grande. Tem muito mau feitio, e ao contrário do que digo a toda a gente, isso alegra-me. Significa que se vai saber defender, que não será mole e que é "tesa". A minha Meia Leca. A minha menina Meia Leca.

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