Esta semana fomos ver o filme do momento. Antes de dizer o que achei do filme é preciso relembrar quem são os meus.
Ora bem, o meu avô fugiu à guerra civil espanhola por um triz chamado "navio-mandado-a-espanha-para-recolher-os-portugueses-que-lá-viviam". Caso contrário neste momento eu trocaria o bailinho da Madeira pelo Famengo e os meus r's seriam um problema de garganta. Viveu na terra até 1945 altura em que trocou a sua cama na Terra por uma esperança Moçambicana. A sorte não se repetiu e ele viria a morrer de desgosto depois de ser chutado das suas coisas para a sua Terra. Não sonhou morrer na Terra mas sonhou com ela talvez mais noites do que a sua vida teve.
A minha irmã vive a 18 mil kms de distância da Terra e tem uma situação económica de nos fazer inveja. Na cozinha dela não está o galo de Barcelos mas um lenço de namorados. Não vem de carro com atrelado atrás mas todos os anos enche as malas de chouriço, pão, queijo e bacalhau. Conhece bons hoteis e lugares distantes e sonha um dia morrer em Portugal.
A familia do pai do Sr. Eng. está em França há 3 décadas. Com eles estão uns quantos meus também e todos juntos ajudam a fazer os 2 milhões de porteiras e pedreiros só nos arredores de Paris. Também eles dizem asneiras em português. Também eles jogam ao mata e à sueca. Também eles sonham um dia morrer em Portugal.
A Gaiola Dourada é uma comédia relativa porque só quem não tem a fotografia da casa da Terra no cacifo do trabalho e olha para ela sempre que pensa que não está na Terra, é que pode achar graça ao filme. Discussões de quem é que fica naquela terra e de quem vai para a Terra. Palavrões na lingua da Terra. Revistas cor-de-rosa da Terra. São pedaços da vida de quem anda lá por fora. Mas são também pedaços de um esperança sofrida, de um certo nó na garganta: como estará a nossa Terra?
Há 2 anos que não me ponho à frente das portas de chegadas do aeroporto (e a ver se não volto lá nunca mais). As malvadas apertam-me o coração e soltam-me os soluços. Delas saí "o" abraço da distância: consolo medido em minutos telefónicos, a alegria traduzida em encomendas e cartas e a esperança de que aquela porta se feche para sempre porque "aqui estamos salvos. Estamos na nossa Terra."
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