segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Sobre o colchão de ar

Os "meus 3 filhos mais velhos" já chegaram ao outro lado do mundo. A viagem correu bem, sobretudo para o mais velho e eu fiquei em terra, sozinha, com a garganta seca, o coração apertado (ainda por cima porque a Meia Leca está doente à séria) mas a dizer convictamente que o Verão está quase ai e que não é preciso tanta tristeza. Eles responderam-me que sim, como quem diz "Se fosses tu, eu queria ver como era!" 
Apesar de eles terem nascido e vivido sempre à distância de um dia, foram meus desde o seu "anúncio". É quase como se a distância física só nos aproximasse ainda mais. De modo que desde que me casei que decretei que na noite antes da partida, eles vinham dormir à nossa casa. A principio houve muitos problemas mas depois tornou-se um hábito que nos enche o coração. Há o ritual de escolher um divertimento para durante a tarde: seja andar de karts na Expo ou ao cinema ou à "feira popular" (que só com esta Mãe que tantas vezes passou por Tia, é possível). Depois há o ritual de vir para casa fazer petiscos com o Tio e usar um avental de Vaca que é já deles. Depois as anedotas, o "teatro", a Wii,... A seguir há que fingir que se vê um filme enquanto se fala, come pipocas, brinca, ou qualquer outra coisa que não inclua ver o filme. E, por fim, o ritual da cama. Como não havia colchões de ar para todos, dormia de cada vez um no colchão preferido. A mim cabia-me a promessa de que para a próxima ia comprar colchões, em número suficiente, para não haver problemas. Desta vez cumpri a promessa. Cheguei à véspera com tudo tratado: comidas, divertimentos, roupas e o filha da.... do colchão. Mas a Meia Leca adoeceu à séria, e o programa da véspera converteu-se numa promessa de jantar que rapidamente se transformou em nada. Pus-me a chorar (qual Mãe a quem são arrancados, à força, os filhos, para a guerra):
- Ai que os putos não vêm! Ai que eu também não posso ir jantar com eles! Ai que a Meia Leca está doente que doí! Ai que só os vejo no Verão! Ai que tenho um colchão novo que não serve para nada! Ai que já tenho saudades! Ai que tenho de ir para as urgências do hospital! Ai que não durmo nada há 3 noite! Ai...
Por fim, resignei-me e quando no outro dia, já no aeroporto lhe pedi desculpas, um deles respondeu-me solenemente:
"- Por acaso Tia, fiquei chateado. Mas depois tu compensas-me!"

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